O Gene Pescoço Pelado

Incubação de Ovos de Galinha
31 de maio de 2018
Genética básica
4 de junho de 2018

O gene pescoço pelado (Na, na sigla em Inglês – Naked neck) existe a centenas de anos, embora nunca tenha sido dada a devida importância, pois além muitos acharem que era cruzamento com perus (é comumente conhecida como turken, de turkeys=peru e chicken=galinha) e também são geralmente tidas como feias.

Foi na Transilvânia, Romênia, onde primeiramente se reconheceu a variedade como raça, muito criada também na Alemanha – de onde se credita a maior parte da seleção e melhoramento – e também na França, onde eram criadas soltas, conhecidas como Label Rouge (ou selo vermelho, nome dado aos produtos mais naturais, como aqui no Brasil se conhecem por caipiras ou coloniais). Durante a década de 80 e 90, quando pintinhos franceses foram comercializados no Brasil, a variedade ficou conhecida com label, nome que ainda persiste em algumas regiões do país, hoje dominada pelo vulgo ródia.

Curiosamente a raça Transilvânia, ou turken, foi desenvolvida com o propósito de produção de ovos o que veremos que não é a melhor característica do gene. Hoje a raça pura é muito rara, porém o gene responsável pelo pescoço pelado é mundialmente distribuído e muito comum no Brasil.

O gene Na – Pescoço Pelado – é responsável, dentre outras coisas por reduzir a quantidade de penas no corpo do animal, além de sua principal característica que é o pescoço sem penas. É um gene de dominância incompleta, ou seja, o heterozigoto Na/na+ (lembre-se que o sinal + significa que é o alelo selvagem, caso tenha dúvidas leia nosso post genética básica I aqui e o II aqui) terá mais penas no corpo que o homozigoto Na/Na. Alguns estudos mostrou que o pescoço pelado puro possui a metade das penas que uma galinha normal, não pescoço pelado.

 Repare neste pintinho de um dia de vida, a ausência de penugens por todo o ventre, desde o pescoço até a cloaca.

Essa característica, inicialmente foi a que nos levou a introduzir o gene pescoço pelado no nosso plantel.

Para identificarmos se nossas aves são homo ou heterozigoto basta olhar na frente do pescoço, animais hetero possuem um tufo de penas bem desenvolvida na região, como da galinha ao lado, enquanto homozigotos, no caso do galo, ou não possui ou possuem muito ralas. Essa característica é visível desde o primeiro dia de vida.

 

 

 

 Ao cruzarmos um pescoço pelado duplo fator – ou homozigoto – com uma animal com pescoço emplumado teremos:

100% dos filhotes pescoço pelado fator simples, ou heterozigoto.

 

Se pegarmos um casal hetero e cruzarmos, teremos:

25% pescoço emplumado

50% pescoço pelado hetero

25% pescoço pelado homo

Se cruzarmos um hetero com um pescoço emplumado teremos:

50% hetero;

50% pescoço emplumado.

Esse é o cruzamento mais comum, pois muitos criadores criam soltos e sem controle animais pescoço pelado e pescoço emplumado.

E se cruzarmos um hetero com um homo teremos:

50% hetero

50% homo,

Quem esta no começo da seleção tem muitos animais assim, basta selecionar o macho homo que na próxima geração terá muitas fêmeas homos também.

Além da beleza ímpar, as galinhas pescoço pelado tem outras características próprias que podem vir a contribuir com sua criação. As principais são:

– Menos penas;

Embora não se saiba ao certo, acredita-se que o gene surgiu e se fixou em algum lugar quente e úmido do planeta e por ser diferente foi fixada pelos criadores da região. O que sabemos é que animais heterozigoto Na/na+ tem cerca de 80% das penas de animais normais e animais homozigoto Na/Na tem apenas 50% das penas dos animais normais.

Essa pequena diferença na quantidade de pena permite que os animais controlem melhor a temperatura corporal e se adaptem aos diferentes climas do planeta.

Para criadores como nós da Dornas Homestead, que se preocupa com alimentação de qualidade e cria galinhas para ovos e carne, a redução da quantidade de penas é uma facilidade muito valorizada, já que nosso abate é manual e menos penas significa menos trabalho.

– Mais resistentes a temperaturas extremas;

Essa facilidade em controlar a temperatura corporal, fácil de compreender em ambientes muito quentes, também ajuda a controlar a temperatura em ambientes muito frio. Os pescoço pelados são criados em todos os lugares do planeta, desde o cerrado australiano, com temperaturas superiores à 40°C até no norte europeu com temperaturas congelantes de 20°C negativos.

Para nós aqui do Brasil, de altas temperaturas, esse controle térmico é benéfico para todos. Os animais sofrem menos e com isso seu sistema imunológico trabalha melhor, sendo mais resistente a doença;, perdem menos calorias se resfriando, assim usam melhor o alimento, tem boas conversão alimentar e ganham mais peso.

– Alta taxa de crescimento;

Quando comparamos dois animais do mesmo lote, um pescoço pelado e outro não é nítido a diferença de peso. E não me refiro à raça. Aqui temos animais NA/Na, Na/na+ e na+/na+, ou seja, os três fenótipos diferentes, alguns filhos de Na/na+ x Na/na+, logo a única diferença é o gene pescoço pelado e o desempenho é como o mencionado.

Acredita-se que o gene interfere positivamente e diretamente no músculo do peito, mas não se sabe ao certo se é mais uma característica do gene ou apenas um ganho adicional devido ao melhor aproveitamento do alimento.

– Produção de ovos;

Houston, we have a problem! Muita calma nessa hora!

Por que isso? Porque tem de tudo na internet e nos livros de produção animal, além das inúmeras informações dos clubes de criadores. Vamos aos fatos.

A raça foi fixada em meados do século XIX (ou 1800s para os menos propensos aos números romanos), uma época sem controle zootécnico confiável, numa região fria(galinhas botam menos quando em regiões mais frias – mais perto dos pólos, menos luz no inverno), inicialmente para exibições em função de sua aparência.

Acreditava-se que galinhas botavam até 150 na primeira postura, número muito alto para a época, leghorns estavam com taxas de 200 ovos/ano.

Nesta ocasião, a raça Transilvânia Naked Neck tinha pouca propensão ao choco, assim, enquanto outras galinhas paravam de botar para chocar, as pescoço pelados continuavam botando, contribuindo para a fama de boas botadeiras.

Hoje, os controles zootécnicos são mais precisos, além de diversas instituições de pesquisa espalhadas mundo afora contribuírem para uma visão mais próxima das características da raça, o que temos hoje é: Não temos! A raça se perdeu nesses 150 anos, hoje apenas alguns poucos criadores as têm e apenas para exposições, onde cor e crista são mais valiosas que ganho de peso ou postura.

E com saber se são boas poedeiras? Poderiam se perguntar.

Analisando as características isoladamente e criando um padrão. Sabemos que ganho de peso e produção de ovos são duas características inversamente proporcionais, desconheço algum criador/pesquisador com alguma reputação a temer que afirme que galinhas pesadas botam mais ou melhores que galinhas leves.

O gene Na é claramente responsável por ganho de peso, animais pescoço pelado são mais quadrado que aves de postura, além do mais, a grande parte das aves pescoço pelado (não é regra em função dos inúmeros cruzamentos que tempos) botam ovos menores que suas irmãs pescoço emplumado.

Logo sou levado a acreditar que galinhas pescoço pelado botam menos que pescoço emplumado.

Claro que se compararmos as galinhas vendidas em lojas agropecuárias com nossas caipiras “pé duro”, sem dúvida alguma as pescoços pelados vão botar mais e melhor, mas se a comparação for entre duas raças (ou linhas) de pescoço pelado e pescoço emplumado o ganho certamente virá para as galinhas com penas no pescoço.

Portanto, devemos ter muita cautela ao simplesmente apontar a melhor poedeira em função das penas no pescoço.

Em resumo, os pescoços pelados são aves lindas – sim eu acho – dóceis, pesadas, ganham peso rápido, adoecem menos, tem mais carne (relação carne:músculo), são mais fáceis de depenar e mais rentáveis para uma produção comercial de frango caipira, mas não há nada que as defina – ou não – como boas poedeiras.

Por isso, para quem cria para corte, recomendo fortemente que analise a possibilidade de incluir esse gene no plantel, ou comprar pintinhos de incubatórios.

Aqui na Chácara Dornas Homestead, nossa linha macho é pescoço pelado, assim, quando cruzamos o macho pescoço pelado, com nossas fêmeas caipiras de postura, todos os pintinhos serão pescoço pelado e poderão ser abatido apartir dos 70 dias com 2,2Kg de carcaça. Nosso sistema de criação, solto, com alimentos saudáveis, faz com o que o frango fique pronto para abate aos 120 dias com o mesmo peso, e com uma qualidade sem igual.

Obrigado mais uma vez pela leitura e até o próximo post.